
No velho Programa 1 da Emissora Nacional, do tempo pré-Abril, existia
uma rubrica, típica da Guerra Fria, que continha essencialmente
propaganda anticomunista e se destinava a reforçar o semblante
psicologicamente atemorizador da «Cortina de Ferro». Encerrava sempre o
arrazoado em tom autoritário com a mesma frase, bradada por voz
masculina, que dava até o título ao programa: «A verdade é só uma, Rádio
Moscovo não fala verdade.» A verdade a que os portugueses tinham
direito era então determinada pelo controlo ou pela vigilância das
quatro estações de rádio em onda média, curta ou FM permitidas pelo
regime. Do outro lado do continente, pela mesma época, para a imensa
maioria dos cidadãos a questão punha-se de uma forma muito idêntica:
apenas podiam ouvir rádio, em casa, nas lojas, nas cantinas ou nos
locais de trabalho, através de aparelhos como este, construídos sem
sintonizador, com um só botão para ligar/desligar e para aumentar ou
diminuir o volume. Desta forma forçados a ouvir sempre a mesma voz. Como
aquela que se podia ouvir deste lado, apresentada como certa, segura e
rigorosamente indiscutível. A pesada Voz da Verdade.
(In Blog A Terceira Noite )